Seriam prejudicadas as capacidades estratégicas do Estado Nacional, além de funcionários e clientes da instituição.
Cada cidadão e cidadã tem a liberdade de exercer o direito ao voto conforme suas preferências. Não obstante, a importância da decisão a ser tomada nas urnas exige estarmos informados sobre os fatos.
Em 11 de fevereiro deste ano, Flávio Bolsonaro declarou que, sendo eleito Presidente da República, privatizaria 95% das estatais. A declaração foi dada em evento do BTG Pactual direcionado a investidores - a CEO Conference, aos 35 minutos da entrevista, sem que nenhuma ressalva sobre preservar o Banco do Brasil tivesse sido feita.
Mais recentemente, em 14 de setembro, uma declaração mais explícita foi dada pela provável responsável pela política econômica de um novo governo Bolsonaro, Daniella Marques. Ela citou o BB como possível empresa a ser privatizada, mas colocou para isso pré-condições: "reestruturar, sanar, profissionalizar [...] a gestão, recuperar valor". Enfantizamos "recuperar valor", pois o grande empecilho que ela colocou à privatização do BB não é algum caráter estratégico do mesmo, mas sim o seu valor de mercado, que estaria abaixo do que poderia ser vendido - "negocia menos de uma vez o seu patrimônio". O que Daniella diz aqui é que o BB estará mais próximo da privatização num novo governo Bolsonaro quando suas ações estiverem em alta! A afirmação foi feita durante um seminário do grupo Esfera Brasil, que reuniu empresários em São Paulo e pode ser conferida aos 12 minutos da entrevista.
São declarações públicas e que estão ao alcance de todos.
Apenas depois de verem repercussões negativas de tais declarações entre eleitores, em especial junto à comunidade do Banco do Brasil, Flávio e Daniella passaram a negar a intenção de privatizar o BB.
O discurso mudou.
Disseram algo que soava agradável aos donos do poder econômico, depois buscaram minimizar o desagrado causado a quem vive da venda de sua força de trabalho. Cabe a cada um julgar se seria essa uma mudança sincera de posição ou um oportunismo eleitoral.
Um elemento a se considerar nessa avaliação é o histórico do grupo político liderado pela família Bolsonaro em relação às privatizações: declarações públicas; conversas realizadas em reunião ministerial, que a princípio não seriam divulgadas; e, sobretudo, a prática.
Embora tenha dado declarações às vésperas das eleições presidenciais de 2018 de que não privatizaria o BB, Jair Bolsonaro jamais desautorizou sua equipe econômica, em especial Paulo Guedes e Rubem Novaes, a defenderem com frequência a privatização, gerando inclusive movimentos especulativos nos valores das ações do BB.
Mais grave e mais revelador que as declarações públicas, é aquilo que foi dito na fatídica reunião ministerial a portas fechadas e que não se imaginava que sairia dali. Naquela reunião, em 22 de abril de 2020, Paulo Guedes fez uma avaliação altamente depreciativa do Banco do Brasil, desprezando o papel que a instituição teria para o governo, usando palavrão para se referir a ela e manifestando violenta impaciência pela privatização. Bolsonaro respondeu que "isso aí só se discute, só se fala isso em 2023". Ou seja, após a reeleição, quando os efeitos eleitorais negativos de uma privatização não seriam absorvidos com a mesma força.
Diferente da obsessão que tinha pela privatização do BB, Paulo Guedes consentia que se mantivesse a Caixa Econômica Federal como empresa pública. Importante lembrarmos que foi sob a gestão de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e Pedro Guimarães que a Caixa Econômica passou a atuar mais fortemente no crédito rural, uma movimentação que sinalizou a possibilidade de a Caixa absorver o papel de financiador da agricultura no caso de uma privatização do Banco do Brasil. Pedro Guimarães chegou a declarar que pretendia que a Caixa liderasse o crédito rural no país até 2024, à frente do BB. Isso deve ser considerado principalmente frente ao argumento de que o Banco do Brasil não seria privatizado por contrariar interesses de nosso agronegócio, fortemente subsidiado através do Plano Safra, operacionalizado pelo BB.
É importante ainda lembrar que às vésperas das eleições presidenciais de 2018, Bolsonaro negou também que privatizaria a Eletrobras, e no entanto a privatização desta foi levada a cabo em 2022.
Último presidente do BB nomeado por Jair Bolsonaro, Fausto Ribeiro manifestou-se sobre o assunto esta semana, afirmando que os alertas sobre o risco de privatização do BB seriam "mentira", apresentando como contrapontos a necessidade de a privatização passar pelo Congresso Nacional e a solidez do Banco do Brasil.
São argumentos difíceis de serem levados a sério.
A agenda das privatizações passa sim pelo Congresso, mas sempre contou com o fator decisivo da orientação política dada pelo Poder Executivo. Foi assim inclusive com a Eletrobras, em 2022. Sob o comando de Jair Bolsonaro, o Poder Executivo teve inclusive de atuar para derrotar o candidato à sucessão de Rodrigo Maia na Presidência da Câmara dos Deputados. Maia foi apontado por Guedes como um grande obstáculo à agenda de privatização do setor elétrico pelo Governo, e de fato esta só se deu com a vitória de Arthur Lira, então apoiado por Bolsonaro.
Quanto à "solidez" do BB mencionada por Fausto, a reconhecemos em seus mais de 200 anos de existência. Porém, o fato é que nem solidez nem lucratividade são antídotos contra a privatização. Basta observamos que foram privatizadas empresas sólidas e lucrativas como Vale do Rio Doce, Eletrobras e BR Distribuidora.
Vamos lembrar também que Fausto Ribeiro foi o único funcionário de carreira que Jair Bolsonaro colocou na presidência do BB. Antes dele vieram figuras estranhas à empresa, abertamente privatista no caso de Rubem Novaes e vindo de banco privado no caso de André Brandão. Brandão ficou na presidência do BB por pouco tempo, para promover uma profunda reestruturação, que envolveu o fechamento de centenas de agências e também a extinção da função de caixa na empresa.
Notícia veiculada pala CNN após escuta de integrantes do Governo Bolsonaro indicava que a gestão de André Brandão visava preparar o BB para uma futura privatização, que viria após a reeleição que acabou não acontecendo.
A reestruturação de Brandão enfrentou resistência dos sindicatos, que entraram com ações contra a extinção dos caixas e contra a remoção compulsória de funcionários, além de parlamentares, prefeitos e governadores insatisfeitos com as consequências de postos de atendimento de um Banco público serem fechados.
Brandão acabou renunciando ao cargo, e foi em meio ao desgaste da imagem da gestão do Banco que Fausto foi nomeado. Se a agenda de privatização do BB não avançou mais naquele momento, não foi por falta de tentativa.
Diante desses fatos, sobra pouco para relativizar a ameaça de privatização do BB, senão alguma confiança inabalável nas palavras recentes do candidato Flávio Bolsonaro e de sua equipe, que contradizem afirmações deles próprios feitas anteriormente.
A questão não é se a privatização ocorrerá no próximo ano, daqui a dois ou mesmo se será dentro do próximo mandato presencial. A questão é que setores da política e da economia interessados na privatização do BB sairão empoderados com uma vitória do candidato Flávio.
O risco existe, o que vamos decidir nas urnas é se estamos dispostos a assumi-lo.
A União Nacional de Caixas do BB sempre atuou de forma crítica em relação à gestão do BB, também no atual governo, e seguirá sendo crítica a medidas que visem limitar o atendimento presencial a clientes e acelerar a extinção da função de caixa. Seguiremos defendendo também a valorização dos caixas e melhores condições de trabalho. Lutaremos por nossos direitos, seja qual for o governo eleito.
No entanto, não podemos deixar de observar que o Banco do Brasil foi o banco que menos encerrou agências nestes quatro anos, destoando da prática inclusive de outro grande Banco público, que é a Caixa Econômica Federal.
Não seremos indiferentes à ameaça da privatização: o maior de todos os ataques contra os funcionários do BB, seus clientes e a população brasileira.
